25 de setembro de 2008

Ação: aquilo que significa o existir

Uma das perguntas primordiais da filosofia, da humanidade, do indivíduo – quando estamos falando principalmente da civilização ocidental – é resumida nas seguintes palavras: Quem sou eu?

Outras tantas a acompanharão tentando explicar os porquês da existência humana: De onde vim? Pra onde vou? De que somos feitos? Porque estamos aqui? Não dão descanso à mente humana, que em sua história vem construindo uma infinidade de conhecimentos: História, Geografia, Biologia, Física, Química, Matemática, isso apenas para citar o que aprende-se na escola brasileira durante o ensino médio em nosso século, por exemplo. Esses conhecimentos segmentados, divididos e empacotados em disciplinas escolares, são como extensões das mesmas perguntas originadas por humanos curiosos de si e das coisas no e do mundo. Portanto de uma certa maneira, tratam-se, numa relação de parentesco, da mesma filosofia, o saber ou querer saber sobre a vida a existência das pessoas e das coisas.

Uma questão, porém, me incomoda na medida em que o foco sai dos porquês, se deslocando para o como. De que forma um ser humano é capaz de significar o seu existir? A presunção que assumo para tentar responder essa questão, chave para tantas outras perguntas, me causa um posicionamento de cautela e de curiosidade sobre algumas palavras existentes na própria pergunta:

Forma / Ser / Humano / Ser Humano / Capacidade / Significado ou Significar / Existir ou Existência

Uma busca simples na internet ou em dicionários poderia superficialmente trazer o que está envolto a essas palavras. Contudo, para um mergulho mais profundo para entendê-las seria o caso de uma vida de estudo sobre cada uma a fim de tentar chegar a uma noção global da pergunta. Digo isso, pois mil teóricos já terão vivido suas vidas tentando responder ou buscar o que essas palavras trazem consigo. Isso acaba por fazer dessas mesmas palavras o que se chama de conceitos. E como o termo diz, são concebidos, dentro de seus campos de conhecimento. Então, Forma poderá significar uma coisa na lingüística e outra coisa na geologia, assim como ser humano é entendido de uma maneira na antropologia e de outra na religião. Os conceitos são cunhados de acordo com a lógica existente dentro de cada campo de conhecimento.

Para citar um exemplo, Sartre um grande pensador francês nascido em 1905 e morto em 1980 escreveu um livro chamado O SER E O NADA: ensaio de ontologia fenomenológica. Um tratado que tem como principal foco a consciência como sendo transcendente. Nesse livro, Sartre, bastante influenciado por Heiddeger, ainda que cético quanto a um re-encontro com o Ser ( o ser maior, supremo), procura estabelecer uma relação fenomenológica do ser e sua consciência como passíveis de transpor a physis, a natureza fatual e corporal. E com isso acaba por falar de liberdade ainda que de modo pessimista, aparentemente como lemos no trecho abaixo:

Realmente, só pelo fato de ser consciente das

causas que inspiram minhas ações, estas causas já são objetos transcendentes para a minha consciência; em vão tentaria apreendê-las. Escapo delas pela minha própria existência. Estou condenado a existir para sempre além da minha essência, além das causas e motivos dos meus atos. Estou condenado a ser livre. Isso quer dizer que nenhum limite para minha liberdade pode ser estabelecido exceto a própria liberdade... (Jean-Paul Sartre, 1943)

Compreendendo o que ele diz é possível fazer uma relação com uma espiritualidade, a partir do que se entende superficialmente sobre essa palavra. Mesmo assim, não há momento em que ele fale de religiosidade, isto é, ligar o ser ( ou o homem) com algo ou alguém maior, como Deus. Então por isso o título, O ser e o nada?

O exemplo acima procura apresentar essa lógica interna que existe no campo de conhecimento. A palavra ser tem um sentido dentro do texto de Sartre e que poderá ser melhor compreendido com a leitura de toda a obra. Sartre propôs toda uma nova corrente de pensamento nomeada de existencialismo, para qual o ser é peça fundamental para essa lógica.

Posto isto, qual será a lógica da pergunta: De que forma um ser humano é capaz de significar seu existir? As primeiras sugestões dessa lógica referem-se a maneira como expõe a necessidade da resposta. É uma resposta para um ser humano e não para a humanidade. É também sobre o existir desse e não o existir de qualquer outro. A partir daí, será preciso mais pensamento, pesquisa, reflexão para que se compreenda os caminhos que a pergunta propõe.

Há uma ponderação a ser feita, no entanto, quando se lê o titulo desse texto. É uma explicação sobre o que se vai falar? É uma resposta para a pergunta que o texto propõe? Alguma ponderação será necessária no sentido de encaminhar o olhar sobre a indagação.

Para entender a proposição “de que forma”, o olhar junto com o pensamento, deverão se deslocar para as questões de modo, maneira, ou seja, como se dá ou acontece. Assim para diminuir a estrutura a fim de segmentar a compreensão, perguntar-se-ia: “como um ser humano é capaz de significar seu existir? Se continuamos com o processo sintético, passamos para os termos ser e humano que juntos formam no senso comum a idéia de homem. Analisemos: indivíduo mamífero sócio-histórico, classificado como homo-sapiens sapiens pelas ciências, que possui um aparato biológico composto por sistemas que por sua vez compõem-se de órgãos e estes de tecidos, células, moléculas, átomos, elétrons, prótons e nêutrons, energia, etc, etc, etc, etc. Podem ser do gênero feminino ou masculino. O homem! Ou a Energia? “Como um homem(energia) é capaz de significar seu existir?”

A capacidade, palavra que advém do termo capaz, explica aquilo que é qualidade que algo ou alguém tem de satisfazer para determinado fim (objetivo). Se entendemos que “ter de satisfazer, provém de iniciativa a priori de vontade, e em conseqüência, ser necessário que haja condições para a realização dessa vontade, infere-se que possibilidade, competência, e permissão são necessários. Há um verbo que traduz com alguma verossimilhança esses três aspectos: Poder. Por esse caminho, a pergunta seria proposta assim: como um homem(energia) pode significar seu existir? Por fim temos que sintetizar as palavras significar e existir. Tarefa árdua, quando se coloca um homem como Sartre falando sobre o ser e concebendo o existencialismo. Por outro lado, Noam Chomsky uma das maiores autoridades em lingüística ou ainda a semiótica campo de profundo conhecimento sobre os signos, parecem também gigantes diante da tentativa de significar o significar e fazer existir o existir. Contudo, minha presunção aqui assume coragem mais robusta para a seara.

Como termo, significar possui como definição, em boa parte dos dicionários existentes em nossa língua portuguesa, uma ação de criar signos. Esses, que fazem as vezes daquilo que está na physis, dilatam a permanência do homem no tempo, tendo em vista a capacidade do ser humano de uso de uma linguagem codificada em signos. O homem transfere o hoje para o amanhã por meio de sua linguagem ou linguagens. O que está transmuta-se em ser. Em outras palavras a hipotética aparência de momentaneidade, adquire a hipotética aparência de permanência ou eternidade. Hipotéticos mais pela possibilidade do acontecer do que o acontecer de fato. Afinal o amanhã nunca é o hoje. Proibições do tempo, mesmo na teoria da relatividade de Einstein. O homem não cria signos aleatoriamente, nem sozinho. Convenciona-os com outros homens por sua característica social. Então significar, isto é, criar signos, parece ser a necessidade que o homem tem de apropriar-se do mundo, digeri-lo e transformá-lo para adiante, a fim de tornar a si mesmo eterno.

E existir? Do latim, existere = ser, ter existência real. Da expressão, esse sistens = estar firme, estável. Muitos dizem e disseram a respeito de existir, o ato. Mas a definição da palavra em sua origem produz uma sensação mais concreta para uma compreensão mais palpável. Estar firme é uma imagem plausível para um indivíduo que existe.

“Como um homem pode eternizar seu firmar-se (ou seu estar firme)?”

A despeito do caráter jocoso ou sexual que a nova forma da mesma pergunta possa produzir em mentes menos interessadas, há uma nova disposição para compreender a pergunta, ainda que de igual modo, a dúvida permaneça.

Se colocarmos aqui a imagem de uma estátua de uma praça qualquer, percebemos que os indivíduos históricos sempre tenderam a, simbolicamente e até infantilmente, responder essa pergunta com esses dispositivos iconográficos. Bonaparte, Lênin ou Duque de Caxias estão firmes por aí, parados em muitas praças. Trazem para seus amanhãs, nosso hoje, sua existências, suas vidas, suas histórias. Contudo, e ao mesmo tempo, não estão aqui, não mais. A idéia de eternizar um homem fixando-o, tornando o imóvel parece equivocada, quando entendemos melhor o oposto de inatividade. O exemplo da estátua é ilustrativo para qualquer idéia de inação. O olhar para o passado como uma fotografia daquilo que já não é mais. Um texto dentro de um livro, parado em cima de uma estante. Todos, símbolos da eternalização de homens anteriores.

A ação é aquilo que, na verdade e ao contrário, parece definir esse firmar-se. A ação é viva, acontece no agora e impregna no sempre. Agir é existir. A contemporaneidade fragmentada em profusões de imagens, informações, cria uma aparente sensação de movimento, ilusão da ação de um indivíduo produtor. Como em um veículo que nos transporta em viagem, em que o que está lá fora passa incessantemente. Nos carrega para outro ponto adiante. Nem sempre, porém somos o próprio condutor dessa ação. Estamos e ficamos passivos às transformações e a essa profusão contemporânea. A Ação permite o conduzir-se e o levar-se para outro ponto adiante. Não apenas a si mesmo mas o que está ao seu redor. Ação enfim é o próprio homem acontecendo, a energia não dissipada nem perdida, mas configurada e transfigurada no agora-sempre, firmando o cosmos no eterno.

Existir não é um ato passivo.

Temos que resistir à inexistência

da mesma forma que lutamos todo o tempo

contra o medo da existência...

Nem todos tem o culhão para fazê-lo.

alguns se contentam com o meio-termo

do não ser nem deixar de ser...

(Daniel Duende BSB)

Enquanto você

não mostrar serviço

não definir seu vício

não souber o que quer

fica difícil

(Fábio Fernandes SP)

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